2004/03/30
Uma esquerda em branco
Não costumo concordar com a maior parte do que se escreve por estas bandas, mas recomendo a leitura do post Uma esquerda em branco, de Daniel Oliveira.
Destaque:
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Destaque:
Primeiro o público: a média de idades das mais de 1.500 pessoas presentes deveria rondar os 60 anos. Era a velha esquerda que ali estava. Não, não estou a falar de nenhuma área política ou partidária. De esquerda, estava gente de todos os quadrantes. É mesmo de uma geração que falo. A geração que fez o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Ela estava toda ali, em caras conhecidas e anónimas. E os aplausos disseram quase tudo do sentimento que dominava a sala: contra «os políticos», contra «esta democracia», contra «o sistema». Nenhuma esperança. Só amargura e desespero.
Saramago lá deu uma facada indecente no seu partido, ao dizer que fazia parte das suas listas «apenas por uma questão de fidelidade». Uma fidelidade que confessa em público a sua traição era bem dispensável, mas adiante. O apelo já claro e sem rodeios que Saramago fez ao voto em branco, a um protesto legítimo mas que nada constrói, é que marcou toda conversa. E caiu bem, mesmo que ninguém tivesse muito ar de o querer seguir. Era mais uma catarse colectiva. O que Saramago propunha era que os cidadãos «uivassem», que gritassem «estamos fartos», usando as suas próprias palavras. Ou seja, que confessassem a sua derrota a ver se «eles» (os políticos) ouviam. Eles, indistintamente. Os outros, sem nome nem culpa.
Este populismo que tomou Saramago é só a rendição final de uma geração de esquerda. E esta esquerda nega-se a si própria a obrigação de construir a alternativa. Quer ser passiva e desalentada. Estava ali uma geração que já não tem nada a perder. Estava ali uma esquerda rancorosa e cansada, de todos os partidos. E verdade seja dita, Saramago representa-a como poucos.
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